O verão no Cerrado é tempo de abundância. As chuvas renovam a paisagem, o verde reaparece com força e as frutas surgem generosas nas feiras, quintais e mercados locais. Manga madura escorrendo pelo braço, caju perfumando a cozinha, polpas amarelas e intensas de araticum e cagaita anunciando que a estação chegou.
Mas junto com a fartura, vem também um desafio: como aproveitar melhor as frutas de verão, evitando desperdícios e valorizando cada parte do alimento? No Cerrado, onde a natureza ensina sobre ciclos, resistência e cuidado, o aproveitamento integral sempre foi mais do que tendência — é tradição.
Hoje, no Cerrado Temperado, o convite é olhar para as frutas da estação com criatividade, consciência e afeto.
Frutas do Cerrado: sabor, identidade e território
O bioma do Cerrado, presente em estados como Goiás, Minas Gerais e Tocantins, é um dos mais biodiversos do mundo. No verão, frutos como cagaita, mangaba, araticum, buriti e caju ganham destaque, tanto na culinária doméstica quanto na gastronomia contemporânea.
A cultura alimentar da região sempre soube respeitar o tempo das colheitas. Antigamente — e ainda hoje em muitas comunidades — o excedente virava doce, compota, polpa congelada, farinha de casca, licor ou geleia artesanal. Nada se perdia. Tudo se transformava.
Aproveitar frutas de verão é manter viva essa sabedoria.
1. Quando a fruta passa do ponto: transforme em geleia rústica
Manga muito madura, cagaita amolecida ou caju já bem doce podem parecer “passados” para consumo in natura, mas são perfeitos para geleias.
Geleia rústica de manga com limão
Ingredientes:
- 3 mangas bem maduras
- Suco de 1 limão
- 2 a 4 colheres de açúcar (opcional)
Amasse as mangas, leve ao fogo baixo (ou panela de fundo grosso) mexendo até reduzir e ganhar consistência. Finalize com limão para equilibrar a doçura.
💛 Dica do Cerrado: Acrescente raspas de casca de limão ou um toque de gengibre para trazer frescor. A mesma técnica funciona com araticum ou mangaba.
2. Cascas e sementes também têm valor
O aproveitamento integral é um gesto de sustentabilidade e respeito ao alimento.
- Casca de manga pode virar chá aromático ou ser batida em sucos.
- Casca de caju pode entrar em compotas.
- Sementes de abóbora ou melão (tão presentes nas mesas de verão) podem ser lavadas, secas e torradas para virar petisco ou complemento de saladas.
No Cerrado, o hábito de torrar sementes e fazer farofas nutritivas sempre esteve presente nas cozinhas rurais. É saber ancestral que hoje dialoga com a alimentação consciente.
3. Polpas congeladas: praticidade para o ano inteiro
Frutas como cagaita e mangaba são sazonais e delicadas. Uma forma tradicional de prolongar o sabor é extrair a polpa e congelar em pequenas porções.
Assim, no período da seca, ainda é possível preparar:
- Sucos refrescantes
- Musses caseiras
- Molhos agridoces para saladas
- Recheios para bolos
🌿 Sugestão: Congele em forminhas de gelo e depois armazene em potes reutilizáveis. Facilita o uso e evita desperdício.
4. Saladas e preparos salgados com frutas maduras
O verão pede leveza. Frutas maduras combinam com folhas amargas, queijos frescos e castanhas do Cerrado.
Experimente:
- Manga em cubos com rúcula e castanha de baru
- Cagaita com folhas verdes e queijo artesanal
- Caju em tiras finas com limão, azeite e pimenta-de-cheiro
Esse contraste entre doce, ácido e salgado é característica marcante da culinária brasileira — criativa, vibrante e cheia de personalidade.
Tradição, criatividade e consciência
Aproveitar frutas de verão não é apenas uma escolha econômica. É uma atitude ambiental e cultural.
O Cerrado é um bioma que enfrenta constantes ameaças. Valorizar seus frutos, comprar de produtores locais e usar o alimento por completo fortalece cadeias sustentáveis e mantém vivas práticas tradicionais.
Quando transformamos uma fruta madura em doce, quando secamos uma casca ao sol ou congelamos uma polpa para outro momento, estamos praticando cuidado — com a terra, com quem produz e com a nossa própria memória alimentar.
Cozinhar é também preservar
O cheiro de doce de manga reduzindo na panela, o suco amarelo da cagaita escorrendo pelas mãos, a polpa do araticum retirada com paciência: tudo isso é experiência sensorial, mas também é herança.
O verão passa rápido. As frutas amadurecem de uma vez. A natureza ensina que abundância também exige responsabilidade.
Que possamos olhar para cada fruta como um presente do território. E que, no Cerrado ou em qualquer lugar do Brasil, o aproveitamento seja sempre um ato de respeito, criatividade e afeto.
Porque cozinhar é isso: transformar o tempo em memória — e a memória em sabor.
Fonte: Cerrado Temperado

